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Frei Eduardo Chagas Nithack, um homem à frente do seu tempo

07 de abril
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Aos 80 anos morre o sacerdote franciscano Frei Eduardo Chagas Nithack, que fez história no Educandário Santo Antônio e toda a diferença na vida de milhares de pessoas

Não deu para segurar as lágrimas na cerimônia de corpo presente realizada na Capela de Santo Antônio da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, em homenagem a Frei Eduardo Chagas Nithack, que faleceu aos 80 anos no dia 4 de abril.
Segundo pessoas próximas ao Frei Eduardo, a causa da morte foi uma forte infecção de urina que o obrigou a tomar muitos antibióticos, a imunidade baixou e surgiram muitas feridas que impossibilitaram sua alimentação, e ele foi ficando cada vez mais fraco. Ele ficou em Olímpia por uma semana e depois veio para o Recanto São Vicente de Paulo para fazer tratamento aqui, mas não estava muito bem e precisou ser internado, vindo a falecer.
Um sentimento de profunda gratidão e saudades antecipadas tomava conta da igreja onde tantas vezes o Frei Eduardo celebrou suas missas sempre bem rápidas, direto ao assunto e ao coração dos católicos que aprenderam a admirar o frei que viveu o ideal de São Francisco, realizando um trabalho extraordinário à frente do Educandário Santo Antônio, um trabalho que foi muito além da educação inovadora e literalmente salvou vidas.
O Educandário Santo Antônio, que virou instituição referência com o trabalho sem igual realizado pelo Frei Eduardo, era uma instituição para onde crianças pobres e sem futuro iam estudar, e essa condição torna ainda mais admirável o trabalho do Frei Eduardo, que transformou um ambiente onde pairava trevas, em luz. Com o seu trabalho a instituição que abrigava os “problemas” e os “casos perdidos” da cidade, transformou-se numa instituição referência com as práticas inovadoras que o Frei Eduardo e sua equipe implantaram lá.
Quem incluiria o xadrez e o tênis de mesa numa escola de crianças pobres? Frei Eduardo implantou e os resultados foram maravilhosos. Uma das grandes inovações, a Educação em tempo integral, Frei Eduardo já havia implantado nos anos 80 no Educandário Santo Antônio e com isso proporcionou aos alunos uma experiência extraordinária.
“Ele foi a pessoa que impulsionou o Educandário e o transformou no que é hoje, porque as ideias que o Frei Eduardo tinha naquela época hoje se coloca como algo inovador na Educação em termos de Educação Integral. Essa era a proposta dele e hoje está sendo desenvolvida como algo novo. Vemos que ele foi um homem à frente de seu tempo com a intuição educacional que ele teve. O Frei Eduardo dava valor a algumas coisas que ninguém dava atenção naquela época. Ele gostava muito de esportes diferentes como o xadrez, o tênis de mesa, e isso ele foi um pioneiro em Bebedouro por impulsionar esse tipo de esporte. Ele tinha esse compromisso com a classe mais pobre, foi um homem totalmente desprendido e que viveu para tentar transformar a vida das pessoas”, disse Adalardo Martins, que era frade franciscano na época e o substituiu à frente do Educandário.  
E Frei Eduardo transformou mesmo a vida de milhares de pessoas, não só pelas ações inovadoras na música e no esporte, mas principalmente por estimular uma nova consciência.
“As pessoas acreditavam que o diferencial era ser uma escola de música, tinha um esporte de alta qualidade, mas isso não era nada, isso qualquer um pode fazer. O que tinha de diferente era a forma com que as crianças eram educadas, com consciência crítica, com capacidade de enxergar além do que se vê”, conta o professor Robison Quitério, que completa: “Vim trabalhar no Educandário com Educação Física, e me deparei com Frei Eduardo e com sua filosofia que ele chamava de ‘Crítico Libertador’. Essa filosofia que é a obra dele e ficou para todas as crianças se baseia no fato de se conhecer a ideologia que tem por trás de cada coisa, assim você terá a liberdade plena de escolha que até então você não teria.”
Não foi fácil a trajetória do Frei Eduardo no Educandário, e ex-funcionários como Raimunda Hernandes contam que “com mãos de ferro ele sustentou o Educandário que sempre foi deficitário, mas ele nunca desistiu daquelas crianças. Com isso ele ajudou a formar uma geração em nossa cidade. Bebedouro perdeu uma grande referência, uma pessoa que ajudou a formar cidadãos”.
A falta de recursos foi o desafio constante, mas Frei Eduardo fez “das tripas coração”, conseguindo recursos até de Protestantes da Alemanha para proporcionar às crianças pobres de Bebedouro a melhor educação possível.
Diante de tanta abnegação pelo Educandário e pelas crianças, não surpreende o fato de vários de seus alunos terem se deslocado de suas cidades e deixado seus afazeres para participarem do velório do “grande pai” que tiveram.
O maestro Américo Batista conta que dois dias depois de deixar o Educandário recebeu a visita do Frei Eduardo em sua casa, e que ele foi logo dizendo: “olha, você saiu do Educandário mas eu não desisti de você. Amanhã, na segunda-feira, você embarca no primeiro ônibus para Campinas e você vai ser músico”.
Não só o maestro Américo, que inclusive morou na casa da família do Frei Eduardo quando estudou em Campinas, mas várias pessoas cursaram faculdade graças ao apoio financeiro do Frei Eduardo.
Nilton Santos, assessor de imprensa da Câmara de Bebedouro, conta que conseguiu se formar jornalista porque o Frei Eduardo se juntou à sua família e, juntos, conseguiram custear seus estudos. “A única coisa que podemos dar a ele é gratidão, o nosso muito obrigado porque ele não formou jornalistas, professores, advogados, ele formou cidadãos que hoje estão tentando dar sequência a esse trabalho que ele iniciou aqui”, disse Nilton Santos
E aos 80 anos, mesmo adoentado, Frei Eduardo continuou cheio de ideias e planos.
À reportagem de O Jornal, o frade Heraldo Felício, que cuidou do Frei Eduardo no último ano, contou do amor total do frei pelo Educandário “ele estava sempre contando sobre o Educandário, sobre suas histórias, suas experiências, das crianças e da forma diferente de educar que ele dizia ter aprendido com as crianças” e do quanto ele queria viver “quando falo da luta de viver dele é da necessidade que ele tinha de sempre estar ensinando. No ano passado, já cadeirante, ele foi convidado para ministrar uma palestra na faculdade de Marília e ele foi com muita alegria e muita disposição dialogar com os alunos e professores. Fizemos um sarau e ele ficou muito contente”. 
Essa vontade de viver era tanta que “aceitar o fim da vida foi muito difícil para o Frei Eduardo”, nos contou o Frei José Luís, que junto com Frei Irineu, Frei Adalardo e Frei Humberto vieram substituí-lo quando ele deixou o Educandário para assumir a posição de superior da Custódia Franciscana.
Os presentes no velório do Frei Eduardo ressaltaram o quanto ele seguiu à risca os ideais de São Francisco de Assis, tanto é que morreu tendo apenas duas “mudas de roupa”, todas oriundas de doações, pois nunca ligou para isso e a funcionária da casa de Marília é que tinha que lembrar constantemente aos outros frades que precisavam comprar isso ou aquilo para o Frei Eduardo, pois ele nunca pedia e usava o que tinha. 
Frei Eduardo nasceu no dia 22 de novembro de 1936 em Campinas, sendo seus pais Antonio Nithack e Nair Chagas Nithack, já falecidos. Sacerdote franciscano, ingressou na Custódia do Sagrado Coração de Jesus no dia15 de agosto de 1963 e foi ordenado sacerdote em 15 de novembro de 1967. Fez seus estudos filosóficos na PUC-Campinas entre 1959 e 1962, e os teológicos no Mount Alvernia Seminary, Wappingers Falls (New York), EUA.
Foi pároco da Igreja Nossa Senhora de Fátima, em Marília, onde residiu nos últimos anos, da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus em Bebedouro, da Nossa Senhora Aparecida, em Olímpia, foi presidente do Educandário Santo Antônio de Bebedouro por 20 anos, secretário-executivo do Cefepal, diretor do Departamento Municipal de Cultura e Chefe de Gabinete da Prefeitura de Bebedouro em 2001, assistente das OFSs em Bebedouro, Garça, Olímpia e Severínia, assistente da ENS em Marília, Garça e Petrópolis (RJ). É cidadão bebedourense por decreto outorgado pela Câmara Municipal de Bebedouro.
Pensador e filósofo nato, é autor dos livros: “Reflexões sobre a Essência do Homem”, “Por uma Educação Criativa e Libertadora”, “O Corpo Místico e os Sacramentos sob um enfoque holístico-existencial”, “Reflexões Espirituais e Afins”, “Estudo introdutório ao culto e a liturgia em diversas tradições religiosas” e “Novena em louvor a São
Francisco de Assis”, em colaboração com Frei Silvério Costela.
A morte de Frei Eduardo deixa um vácuo imenso em Bebedouro, pois faltam mais “Freis Eduardo” para continuar a obra de educação libertadora que ele deixou. Sem dúvida nenhuma foi a pessoa que passou por aqui que mais fez a diferença. É uma pena que as novas gerações não contarão com esse guia, pai, amigo e irmão Frei Eduardo, um homem sempre à frente do seu tempo, que fez toda a diferença para Bebedouro e seu povo.

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