Entre em sua conta



Crie sua conta


Dados Pessoais

Endereço

Dados da Conta


Dr. Neyton Fantoni Júnior, um juiz apaixonado por seus livros

13 de abril
000

Em entrevista ao O Jornal, Dr. Neyton contou sobre sua formação e sua paixão pela leitura, que o permitiu doar milhares de livros ao IMESB
 
A primeira impressão que se tem ao conhecer o juiz da 1ª Vara de Bebedouro é de que ele é uma pessoa muito séria, contida, capaz, inteligente, atributos que devem fazer parte das características de um bom magistrado. E ele é realmente tudo isso. 
Quem tem a honra de conhecer o Dr. Neyton Fantoni Júnior vai perceber que sua principal característica é de ser um homem apaixonado. Esta paixão é percebida quando seu olhar cruza com... um livro. E é assumidamente um ciumento. Leitor voraz e eclético, o juiz conversa sobre qualquer assunto com muita propriedade. 
Em tempos de internet e leitura rápida, conversar com Dr. Neyton é uma aula de conhecimento. Dono de uma respeitável coleção de livros, no final de 2016 ele deixou seu ciúmes de lado e doou parte de seu acervo à biblioteca do IMESB (Instituto Municipal de Ensino Superior de Bebedouro) e fez a alegria de professores e em especial dos alunos, que terão a oportunidade de, como ele, se apaixonar por diversas obras.  
Dr. Neyton conversou com a reportagem de O Jornal na ocasião. Nada melhor do que, no mês do livro, saber um pouco mais sobre essa fantástica prática que é ler. Acompanhe. 
 
O Jornal – Como surgiu seu interesse pelo Direito?
Dr. Neyton Fantoni Júnior –
Comecei a tomar contato com a área jurídica na adolescência. Meu pai era diretor de cartório e a região que eu morava, em Barretos, o bairro Primavera era o local em que tradicionalmente moravam os juízes e promotores de lá. Fui amigo de vários filhos de juízes e promotores e comecei a conviver nesse ambiente.
 

Qual foi sua maior influência?
Minha grande influência foi quando o ex-presidente do Tribunal de Justiça e atual secretário de Educação do Estado de São Paulo, o desembargador José Renato Nalini, morou ao lado de casa. Eu estava indo para o Ensino Médio e ele sempre dizia que eu tinha muita vocação, muito jeito para a área jurídica, ele dizia que eu tinha muito jeito para ser juiz. Uma professora de literatura também falava sobre minha vocação para ramo do Direito. Quando terminei o terceiro colegial e ia fazer vestibular, ela disse: ‘Você está dizendo que fará Direito, mas você será juiz pois tem este perfil’. Então explicou o porquê ela via desta forma: ‘Deu um lado do seu coração você tem um São Francisco e do outro um dom Quixote, então será um excelente juiz’. Eu nunca tirei aquilo da cabeça. 
 
E foi aí sua decisão de ser juiz?
Não. Fiz vestibular, fui estudar em Campinas e, ao longo do curso, conhecendo as matérias e vendo os ramos que surgiam, cada dia mais me identificava com a magistratura e foi aí que amadureci a ideia de ser juiz.
 
E como foi sua trajetória?
Colei grau em janeiro de 1985, prestei concurso para magistratura no mesmo ano. Eu era muito novo e não passei. Na época não gostavam de juízes novos, hoje é diferente. No ano seguinte abriram novo concurso, coisa rara em tão pouco tempo, e prestei novamente. Desta vez passei e tomei posse em maio de 1987. Iniciei minha carreira em Itu, fui juiz em Colina e em abril de 1991 vim para Bebedouro.
 
O que faz um processo ser importante?
O tempo dentro da magistratura vai te ensinando e mostrando quando o caso é importante. Toda pessoa que tem um processo acha que sempre o caso dela é o mais importante. Alguns processos chegam à Justiça e só existem pela falta de diálogo, de entendimento, o fato ou a situação em si não exigiria uma demanda. Infelizmente vivemos em uma época de muito litígio, o país e principalmente o Estado de São Paulo possuem muitos processos que um diálogo resolveria, sem aquele 8 ou 80, aquela disputa. 
 
O que fazer para mudar?
A luta hoje, principalmente do Poder Judiciário, é mudar a cultura do litígio para a cultura do diálogo, mas esta é uma questão cultural que não se muda da noite para o dia. O aperto de mão tem uma simbologia muito grande, as pessoas estão se desfazendo, em um ambiente de hostilidade, ressentimento e rancor. Um aperto de mão dado na hora de um entendimento lava a alma da pessoa, coisa que 30 anos contínuos como juiz percebemos claramente. 
 

Como é saber que em suas mãos está a vida de uma pessoa?
Tem que ter preparo e sensibilidade, duas coisas que não podem faltar a um juiz.
 
Como é sua convivência com os livros?
O livro coloca a grandeza da vida diante de seus olhos. Grandeza no sentido de mostrar os níveis de evolução, os níveis de pensamentos, as divergências. O livro te ensina a conviver, a respeitar as opiniões contrárias, a ver a diversidade como algo absolutamente natural. Ele te dá um patamar civilizatório muito grande. Só quem teve tanta proximidade com o livro, tanta ligação durante toda sua vida com livros, tem condição de perceber essa força, esse peso que o livro tem.
 

Quantos livros o senhor chegou a ter?
Não tenho a conta certa, mas em torno de 10 mil exemplares.
 

O que o senhor falaria para os leitores iniciantes?
Eu acho que o mais importante, se eu pudesse dar um conselho, era o de ler. Ler o que mais chama a atenção, o que mais te atrai, o que mais se identifica com sua personalidade. A convivência vai ampliando. O essencial é desenvolver o hábito da leitura. Eu leio de tudo um pouco, você estar na vida jurídica demanda leitura, mas é preciso se lembrar de que existe vida lá fora, que existe muito mais coisas que aquele “mundinho jurídico” que necessita ser explorado, ser conhecido.
 
O que o senhor aprendeu com os livros?
As duas maiores lições que tive em minha vida foram oferecidas pelos livros. A primeira delas é que na vida ou na história, a pessoa colhe mais adiante o que plantou lá atrás, e para plantar, para regar, para esperar e para colher, precisa de conhecimento. E o conhecimento é algo que, aconteça o que acontecer, você não perde. A segunda lição aprendi com o presidente americano John Kennedy: “A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã.” Isso foi um ensinamento que serve para nos mostrar que não devemos contar com o conhecimento dos outros, construa seu patrimônio cultural. A vida vai dar muitas voltas, vai colocar pessoas na crista da onda, mas vai colocar também no subsolo e é a volta por cima que realmente vai mostrar a capacidade de controlar a situação.

 


Deixe um comentário