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Casa de Santo Expedito completa 12 anos de olho no futuro

20 de abril
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Recuperar adolescentes machucados pela vida e formar cidadãos de bem são alguns dos princípios da Casa, que na quarta-feira (19) completou 12 anos

Os números são significativos: em 12 anos, 74 adolescentes atendidos, sendo 42 do sexo masculino e 32 do sexo feminino. Neste 12 anos, 41 adolescentes entre 12 e 13 anos passaram pela instituição, 24 entre 14 e 15 anos e 9 entre 16 e 18 anos. Esta é a Casa de Santo Expedito, que completa 12 anos de atuação e que teve missa solene realizada em comemoração na quarta-feira (19). O padre Rodrigo César Sicherolli, que assumiu a paróquia São João Batista no começo do ano, é o atual responsável pela instituição. Há 3 meses, ele passou a conhecer a Casa de Santo Expedito e ainda está se ambientando, como ele mesmo disse ao O Jornal em entrevista realizada no sábado (15). “O tempo foi muito curto, apenas 3 meses. Estou em processo de conhecimento, conhecendo as crianças, os adolescentes, me aprofundando no estatuto. A primeira coisa foi configurar uma diretoria de trabalho comigo, com pessoas da cidade, em especial da paróquia de São João Batista, mas também pessoas da cidade. Temos 19 membros e praticamente todos ligados à Igreja. Estou acompanhando a situação de cada atendido para entender porque eles foram tirados de suas famílias e também se inteirar da situação para traças projetos futuros”, disse padre Rodrigo. 
O processo de adaptação dos adolescentes atendidos sempre é delicado. “Num primeiro momento todos ficam meio ariscos, ficam suspeitos. Mas eles são muito carentes de atenção, e conforme você vai dando abertura eles vão se aproximando também. Procuro estar sempre com eles para criar esse laço, já saí com eles para pizzaria, para a casa de algum membro da diretoria que tenha piscina, fui à missa com aqueles que são católicos, até para criar vínculo. Aos poucos isso vai acontecendo”, disse.
A Casa comporta 12 e estamos na capacidade máxima, não há mais vagas no momento. “Para essa idade de até 18 anos incompletos e casos gravíssimos somos os únicos na cidade, e se precisar acolher por decisão judicial mais algum, hoje, o município terá que encontrar algum abrigo na região. Se tiver decisão judicial nós somos obrigados a acolher, mas não temos capacidade nem física e nem humana para fazer isso agora pois estamos no nosso limite”, completou.
Há sempre uma “confusão” por parte das pessoas sobre quem são os adolescentes acolhidos. Muitos, por falta de conhecimento, acham que se trata de menores infratores, mas a realidade é bem diferente. “Eles são vítimas de famílias desestruturadas, em situação grave. O juiz ou promotor analisa o caso e vê que naquele momento a família não tem condições de acompanhar esse adolescente por uma série de questões que são graves na sociedade. Estando impossibilitada de dar uma vida digna a eles, de dar condições de estudo, de trabalho e de afeto, eles são retirados da família, para que não entrem na violência, no álcool, na droga, para que não vivam nas ruas. Nesse momento esse adolescente vem para nós e nós vamos dar esse suporte a ele e também à sua família, pois temos um grupo de assistentes sociais, de psicólogos, que vão acompanhar essa família para ver se o motivo pelo qual foi determinada a saída desse adolescente está solucionado ou bem encaminhado. Enquanto isso não se resolver, ele mora conosco. Hoje nós contemplamos todos os tipos de violência, seja física, psicológica, sexual, negligência e abandono. Temos os adolescentes que também são oriundos das violências cometidas com suas famílias, que são as dependências químicas, as psiquiátricas, pois muitas vezes o Estado não dá conta de cuidar dessas famílias e desencadeia essas violências, que faz com que essa família fique em estado de vulnerabilidade e com que esse adolescente se torne vítima”, explica padre Rodrigo. 
Na Casa de Santo Expedito, o acolhido receberá todo o suporte que uma casa de verdade deve ter. “O abrigo funciona como uma casa de família mesmo, eles vão para a escola, praticam atividade física, têm acompanhamento psicológico, fazem atividade em oficinas, para que ele tenha um futuro com base na educação. Aqui temos regras, temos horários, tudo o que uma família deve ter. Nosso grande desafio é inseri-los na sociedade civil, pois ainda há muito preconceito. As pessoas ainda veem esses adolescentes como um perigo para a sociedade, ‘eles estão lá como trombadinhas’. Eles não estão no abrigo por serem causadores, eles são, na verdade, vítimas disso tudo. Não estou dizendo que não possa ter acontecido alguma coisa desse tipo, pois o meio em que eles vivem favorece esse tipo de ação. Mas a sabedoria da lei faz com que eles sejam retirados daquela situação para que não entrem mais nesse mundo de drogas, tráfico, violência. Eles são as vítimas. Quando temos um bandido adulto, um dia nós tivemos uma criança inocente que não foi cuidada.  Nossa missão é cuidar deles agora para que tenham um futuro melhor, distante do crime e da violência, e que consigam ser inseridos na sociedade através do estudo e do trabalho, para que futuramente sejam membro da sociedade com suas famílias dignas. Este é nosso grande desafio”, reflete. 

Custo de R$ 760 mil/ano
Assim como as outras entidades, a Casa de Santo Expedito também sobrevive com dificuldades. “Recebemos convênio do município que repassa um valor per capta para a Casa, temos o imposto de renda, cupom fiscal, carnês particulares que vão paras as famílias, e eventos. Os convênios costumam ser depositados com atraso, o que também prejudica. Aquilo que vai faltando, a paróquia, e sobretudo os seus membros, vão cobrindo. O valor que temos de entrada hoje é totalmente abaixo do que precisávamos. Estamos com a casa cheia e trabalhamos com o mínimo de funcionários exigido pela lei, alguns espaços da Casa precisam ser melhorados, mas também não temos verbas para isso. Aproveito para fazer um pedido aos que se sensibilizarem com a causa, que me procurem. Eu mostrarei a casa toda, mostrarei as planilhas, os gastos, e toda a ajuda é bem-vinda. Mesmo quem não pode fazer grandes contribuições pode contribuir com o que puder, com o carnê, tudo ajuda”, disse padre Rodrigo. 
O gasto todo previsto para este ano é de R$ 760 mil, isso caso não aconteça nada de diferente ou de receber algum caso crônico. “Hoje cerca de 80% dos atendidos passam por atendimento psiquiátrico, e temos também casos de soropositivos que demandam custos. Se precisar de um atendimento mais especializado, temos que arcar com isso. A Casa fecha no vermelho todo mês se considerarmos as entradas, e para não fechar temos que buscar recursos. Ou algum diretor faz uma doação para cobrir, ou a paróquia precisa arcar, ou algum evento. Praticamente todos os eventos realizados pela paróquia, 30% vêm para o abrigo. O mês que não tem de onde tirar ligamos para alguns empresários para que eles doem um pouco e cubram. Abrimos o mês sempre no vermelho. Estamos analisando outros convênios com o Governo Federal para tentar suprir essa demanda”, contou.  

Acima de 18 e não está apto para voltar a família
Mesmo a Casa de Santo Expedito fazendo todo um trabalho com a família, às vezes a família ainda não está apta a receber o adolescente de volta. Para casos assim, padre Rodrigo explica: “Existe a família extensa, que são padrinhos, tios, avós, que serão analisados se têm condições de recebê-los. Em último caso pode chegar à família substituta, que é a adoção, que fica ainda mais difícil por conta da idade e do histórico. Varia de caso a caso. Esperamos que ao longo do tempo em que o adolescente esteja aqui, a gente consiga preparar a família para recebê-los de volta, porque o primeiro educador e onde eles devem estar é na família. É uma certa agressão tirá-los da família, eles sentem falta, querem estar lá e não compreendem o porquê de terem sido retirados por não conhecerem outra realidade que não seja aquela que ele viveu. Chega uma idade que não podemos mais assumir, que é quando completar 18 anos, aí é o juiz que decide o que vai ser feito. Se não houver família extensa capaz, vai para a adoção. Mas nunca tivemos um caso desses, pois geralmente ele vai tomando autonomia, geralmente está trabalhando e a família extensa já acolhe. Mas se não tiver jeito aí é uma ‘conversa’ entre Poder Judiciário e município, pois aí ele já é responsabilidade do município”, disse. 

Inserção no mercado de trabalho
Se o mercado de trabalho não está fácil para um jovem recém-formado e com tudo o que um jovem pode querer ter, imagine para um jovem abrigado. “Volta à questão do preconceito. O nosso objetivo é a inserção em tudo, na escola, na sociedade e no trabalho. É muito difícil, porque o preconceito é grande. É uma falta de reconhecimento da capacidade deles, e muitos não dão valor. Se nós não queremos prender os adultos, temos que educar as crianças. Não tem outro jeito, precisamos fazer a nossa parte. Temos que pensar o que podemos fazer para ajudar uma entidade que recebe a todos, não só os católicos, mas que tem como cunho os princípios cristãos. Precisamos ajudar aqueles que precisam de nós”. Ele completou dizendo que algumas empresas empregam jovens do abrigo, mas que geralmente é por indicação de algum diretor e nem sempre por acreditarem no potencial do jovem. 

Conquistas
“A nossa maior conquista é formar cidadãos de bem. Temos casos de adolescentes que saíram daqui, conseguiram emprego e hoje têm sua família de bem. Esperamos que ele saia daqui assimilando os princípios que passamos. Não temos relatos de nossos adolescentes serem reprodutores de violência, por exemplo, que ele teve um bebê e hoje essa criança está com a gente. Isso não acontece, e hoje isso é a nossa maior conquista”, finalizou.


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