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“É uma geração mais precoce, mais informada, mas não necessariamente mais madura”

14 de agosto
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Psiquiatra Jairo Bouer, em entrevista ao O Jornal, falou sobre os jovens de hoje, sobre sexualidade, da “curiosidade” dos jovens em se descobrir e do modo como os relacionamentos podem ser influenciados pela internet 

Na noite da quinta-feira (10), o psiquiatra Jairo Bouer, que atualmente tem um quadro no programa global Encontro com Fátima Bernardes, esteve em Bebedouro como parte das comemorações dos 20 anos do Senac. Jairo é muito conhecido pelos jovens e também por uma geração de adultos que o acompanha desde os tempos em que ele escrevia para o FolhaTeen, um caderno do jornal Folha de São Paulo voltado para jovens e adolescentes, quando fez sua estreia em 1993. Muito simpático e receptivo, ele foi entrevistado com exclusividade pelo O Jornal pouco antes do início de sua palestra intitulada “Impactos da Tecnologia nas Emoções e no Comportamento”. Como não poderia deixar de ser, discorreu sobre sexualidade, sobre a curiosidade dos adolescentes em se descobrir, dentre outros assuntos. Autor de 11 livros e audiolivros, entre eles Guia dos Curiosos Sexo (em parceria com Marcelo Duarte, Panda Books) e Sexo & Cia (Publifolha), atualmente também é colunista do jornal Estado de S.Paulo, da Revista Época, da Revista da Cultura, do UOL e da Rede Atlântida de Rádios (RS e SC).

O Jornal – Como o senhor observa a primeira geração dos jovens que cresceram lendo seus artigos nestes mais de 20 anos de atuação na mídia? 
Jairo Bouer – Comecei em 1993 a trabalhar em jornal, são quase 25 anos. Quem era leitor do FolhaTeen na época tinha seus 13, 15 anos e hoje a maior parte dessas pessoas são casadas, tem filhos, já se separaram, ou casaram e não tiveram filhos, enfim. É muito legal. É difícil você perceber mudanças de comportamento muito agudas, mas esse público de maneira geral, que foi mais exposto a informações, não só as minhas, é uma geração que consegue lidar um pouco melhor com a sexualidade dos filhos e com a própria sexualidade. Sabemos que o mundo mudou muito, saímos dos anos 20 com uma educação mais rígida, na década de 70 foi mais liberal para uma parte da população e a consolidação disso na classe média foi no final dos anos 80, começo de 90. Não que eles não tenham problemas, mas acredito que conseguem lidar melhor com isso hoje.

Quais as principais dúvidas e anseios dos jovens de hoje?
Eu observo o quanto a tecnologia influencia e impacta essa geração, cada vez mais. As crianças de hoje serão ainda mais digitais que os adolescentes de hoje, por exemplo, e cada vez mais e mais. Vejo uma presença muito grande deles nas redes sociais, na internet, eles vão se informando sobre tudo, usam a tecnologia para se conhecer, para marcar encontros, para começar e para terminar um namoro...rs. Se bobear, eles estão mais tempo “on-line” do que “off-line”. É uma geração muito precoce, em parte pelas mudanças sociais, outra pelo acesso à informação, é uma geração que enxerga mais modelos possíveis de relacionamentos pois muitas vezes são filhos de pais separados, enxerga novos modelos, novas estruturas familiares, e isso dá uma mexida na cabeça deles, eles ficam mais abertos a outros padrões de relacionamentos. É uma geração mais precoce, mais informada, mas não necessariamente mais madura...rs. Há quem diga que eles são mais mimados também. 

A geração de hoje é tida como a “geração dos curiosos” na questão de sexualidade. Como poderiam lidar com esse tipo de questão, com essa indefinição, pois muitos não sabem o que realmente querem no quesito sexualidade. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
Essas dúvidas e curiosidades sempre existiram, mas antes ficava cada um encastelado dento de casa, ficavam mais fechadas, ou em segredo ou reprimidos mesmo. Eu acho que hoje com a possibilidade de enxergarem novos modelos, de perceberem outras possibilidades, eles podem se perceber e questionar um pouco mais. Não acredito que a internet esteja fazendo que essa geração seja mais bissexual que as outras não, acho que é um curiosidade que sempre existiu. Mais da parte das meninas, pois elas de certa forma têm mais liberdade do que os meninos nesse ponto. Os meninos ainda carregam um controle social muito forte. Mas acredito que essa experimentação não seja definidor de comportamento, acho que é uma fase de curiosidade e talvez por conta de poder enxergar outras questões na internet. Mas não acredito que a internet faça isso, talvez facilite para que as pessoas se enxerguem. 

É possível um desses “curiosos” que tiveram relacionamento com pessoas do mesmo sexo, voltar a ter um relacionamento hetero? Ou alguém que seja tido como gay se descobrir hetero? 
Classicamente as pessoas tendem a enxergar algo assim: ou o cara é homo, ou o cara é hetero ou o cara está para as duas coisas no meio do caminho e ele é bi. Há muitos anos, quando começaram as primeiras pesquisas da sexualidade humana, os pesquisadores intuíam que não tinha só isso, a questão da sexualidade era muito mais um contínuo do que três pontos distantes. Tem desde o cara que nasce hetero, morre hetero e não pode nem olhar para alguém do mesmo sexo e até o cara que nasce gay, morre gay e não consegue nem olhar para o sexo oposto. Nesse meio do caminho tem o cara lá que vai ter uma experiência única com um cara lá na adolescência e nunca mais vai ter isso, tem o que começa com mulher, tem algumas experiências com homem e depois volta com mulher, enfim, esse cara caminharia mais para o padrão bi, mas o que é definidor é: para onde o meu desejo me leva? Para a maior parte das pessoas o desejo leva para um lado só. Acho que 90% da população adulta seja predominantemente heterossexual, variando dependendo das pesquisas um pouco para tenderem para o mesmo sexo. Acredito que seja um padrão e um comportamento que permanece ao longo da história, não que esteja aumentando por causa da internet. 

Há um estudo que diz que a sociedade será bi daqui um tempo. Procede? 
Freud já dizia que a humanidade era bissexual e só não colocava em prática porque tinha o superego e algumas restrições sociais. Não sei, talvez. Eu converso com muita gente sobre sexualidade e mesmo nos heterossexuais, homens e mulheres, que são absolutamente tranquilos com essa questão de sexualidade, eles contam que nunca tiveram atração pelo mesmo sexo. Talvez uma curiosidade, mas não propriamente que colocarão em prática. Então eu não acredito muito nessa teoria de que todo mundo é bi. 

As pessoas hoje traem mais? Como o senhor enxerga o desapego na atualidade? Por que muitos casamentos na atualidade não duram? A possibilidade de encontrar pessoas fora do seu relacionamento é maior hoje por conta da internet?
Eu acho que as pessoas traem. Hoje talvez seja mais fácil pela facilidade com que se encontra as pessoas através de aplicativos e outras coisas, mas a traição não é uma novidade da tecnologia, ela existiu e sempre vai existir. Essa geração dos “millenials”, como são chamados, têm uma dificuldade de conseguirem ter um relacionamento que haja algum nível de dependência um com o outro. Eles querem uma interdependência, mas ao mesmo tempo querem um vínculo. Quando eles sentem que esse vínculo não vai exatamente do jeito que eles querem eles não aguentam muito e caem fora, e eu sinto que é uma geração que tem menos paciência e tolerância com as particularidades do outro. A internet não aumentou a traição, ela de certa forma foi uma facilitadora de encontro de parceiros. Mas quem queria trair, mesmo antes da tecnologia, dava seu jeito...rs.

Em que a tecnologia afeta os relacionamentos? Mudou o modo de se relacionar?
Eu acho que ela facilita os encontros e também os desencontros. Muitas vezes você começa e termina um relacionamento pela internet, se curte, comenta tudo, depois vê que outra pessoa curtiu, briga e termina. Mas sinto muita insegurança, porque do mesmo jeito que você conheceu a pessoa pela internet ela pode ter conhecido outra, e aí acaba passando a mão nas cobranças e no ciúme e desestabiliza os relacionamentos. Acho que é um canal importante de encontro, mas pode facilitar desencontros também. 


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